Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Notícias de Cuzco (3)

Hoje tomei uma overdose de imersao no mundo inca. Passei o dia inteiro entre mercados e ruínas.
Em Ccorao comprei artesanato diretamente dos artesaos (chullos e chompas), fugindo um pouco do mercado bastante comercial de Pisac.
Em Ccohahuassi visitei um zoológico diferente, mantido por jovens veterinários com doaçoes dos visitantes e venda de artesanato. Pela primeira vez na vida pude tocar em um condor, recolhido por eles para recuperaçao e reintroduçao na natureza, o que vai ser difícil porque eles foram envenenados (provavelmente comeram carniça envenenada por estricnina e isso pode ter afetado o sistema nervoso das aves). É uma ave impressionante e vista assim de perto é mais impressionante ainda. A envergadura das asas chega a três metros. É parecido com um imenso urubu-rei, pesando cerca de 13 quilogramas. Comprei mais chullos sem regatear, como manda a tradiçao. Aqui a compra valeu também pela boa causa.
Pisac está em restauraçao, mas o mercado de artesanato expandiu-se muito e tornou-se muito comercial. Nao sao mais artesaos que vendem. Agora sao comerciantes, alguns até atacadistas. Mas o pueblo melhorou muito, graças ao turismo.
Almocei em Urubamba, onde o Vilcanota muda de nome. O Vilcanota/Urubamba é um dos subafluentes do Rio Amazonas. Urubamba também melhorou uma barbaridade. O restaurante serve um buffet de comida andina de respeito, inclusive um excelente ceviche de truta e uma nao menos excelente papa a huancayna.
Ollantaytambo também está melhor e as escavaçoes prosseguem. O volume de informaçoes sobre o sítio arquelógico aumentou bastante, o que torna mais fascinante ainda esse mundo inca que foi destruído por uma civilizaçao supostamente mais avançada.
Chinchero é um sítio arqueológico que começa a ser restaurado e explorado e já atrai visitantes em volume bastante para melhorar o pueblo.
De volta a Cuzco fui ver um espetáculo de danças folclóricas excelente (o ingresso é o boleto turístico). Lembrou-me o Ballet Folklórico Nacional do México. A propósito, em Belém falta algo parecido.
Amanha ingresso na Trilha Inca, continuando esta imersao na América profunda. Chegarei domingo a Machu Picchu. Segunda-feira reingresso para uma visita com mais calma. Se tiver pique, voltarei a atualizar o blog segunda-feira.
Hasta la vista.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Notícias de Cuzco (2)

A caminho de Cuzco ontem, para abrir o apetite, visitei Pukara (3.810 m sobre o nível do mar), La Raya (4.335 m sobre o nível do mar, marca o fim do altiplano e o início do vale do Vilcanota/Urubamba, afluente do Rio Amazonas), Raqchi (3.475 m sobre o nível do mar, com seu impressionante templo de Vilcanota) e Andahualillas (onde a Igreja de Sao Pedro está sendo meticulosamente restaurada). No final da tarde cheguei a Cuzco.
Cuzco mudou muito nos últimos vinte anos. Para melhor. Muito melhor.
Vinte anos atrás cheguei aqui por via aérea, no dia de um paro armado determinado pelo Sendero Luminoso. No caminho para o hotel o motorista teve que fazer uma imensa volta para se livrar das áreas mais conflagradas. Aqui o Sendero Luminoso nao deixou saudades, pelo que me dizem as pessoas com quem falei ontem e hoje. Dizem que o terrorismo afugentava os turistas.
Cuzco tornou-se cosmopolita, uma esquina do mundo, como Veneza, Paris, Rio de Janeiro, Cartagena, San Miguel de Allende e La Habana, respeitadas as devidas proporçoes, claro).
O turismo fez bem à cidade. Hotéis excelentes e uma boa oferta de hostais e albergues classudos atendem do turista endinheirado ao mochileiro. Todas as melhores grifes, preferidas dos trilheiros, ciclistas e andinistas, estao aqui. Trilheiro de primeira viagem, fui surpreendido com marcas desconhecidas no Brasil (Marmot, Mamut e outros bichos), todas excelentes.
Lugares onde antes ficavam simpáticas espeluncas agora sao charmosos e bem cuidados restaurantes. Ao lado da excelente gastronomia autóctone, surgiu uma cozinha neoandina que faz bonito (e gostoso). E a cozinha internacional nao faz feio também (italiana, francesa, indiana, tailandesa, coreana, mexicana e por aí afora). Todos os lugares visitados pelos turistas passaram por restauraçoes e a infraestrutura melhorou muito, mas muito mesmo. Em Sacsayhuaman tem ate serviço médico para os visitantes. Os guias agora sao profissionais com nivel superior que gostam do que fazem. O curso de turismo forma profissionais para toda a indçustria hoteleira, do guia ao gerente de hotel.
Cuzco é dessas cidades que vale a pena se perder só para descobrir aqueles cantos escondidos que nao estao nos guias e depois se reencontrar. É uma cidade para flanar que com certeza faria a delícia de nossos flaneuses do Flanar.
O boleto turístico que dá acesso a todas as principais atraçoes controladas pelo estado financia a manutençao e a restauraçao delas. É um preço bem pago. Nas igrejas o papo é outro, e o dinheiro dos ingressos vai todo para a Santa Madre que, a bem da verdade, está cuidando do patrimonio. Minha guia, Gabriela, com cuidado para ver onde pisava, soltou a língua para dizer que abandonou o catolicismo e passou a praticar a religiao andina, que já tem bastante adeptos. Disse também que o arcebispo de Cuzco é ligado a Opus Dei. Pelas contas dela o Arcebispado de Cuzco arrecada 4 milhoes de dolares por ano com os ingressos da Catedral, que também está bem cuidada, justiça se lhe faça.
Depois de visitar a Igreja de Santo Domingo, construída sobre o Qoricancha, o imponente templo inca, visitei a Catedral e os sítios de Sacsayhuaman, Tambomachay, Puka Pukara e Qenko, o aperitivo de todos que passam por aqui a caminho do Vale Sagrado e de Machu Picchu.
Se Belém quiser se tornar mesmo um destino turístico, vai ter que aprender umas liçoes com Cuzco.

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Notícias de Cuzco

Saí ao amanhecer de ontem de Puno para visitar as ruínas de Sillustani, basicamente chulpas, torres sepulcrais circulares construídas pelos collas para sepultar seus nobres. Os collas eram muito habilidosos para lavrar as pedras, que transportavam sobre toras desde uma pedreira perto, na margem do Lago Titicaca. O sítio arqueológico fica entre a laguna Umayo e o Titicaca. A laguna é ponto de encontro de aves migratórias e residentes. Ontem dava para avistar flamingos e patos andinos. O lago estava mais uma vez lindísssimo, o azul tranquilo infundindo calma e uma sensaçao de paz (fui o primeiro visitante do dia, mas logo chegaram estudantes que nesta época do ano inundam os museus e sítios arqueológicos, uma boa prática que merece ser copiada pelas escolas do Pará e de Belém em particular). Em frente ao sítio existe uma ilha que é uma reserva de vicunhas, o animal símbolo nacional, protegido pelo Estado, que tem o monopólio da extraçao e comercializacao da la, que é muito cara e rara.
Passei em seguida na casa de um quechua (Conceiçao é o nome dele) que graças ao turismo melhorou seus ingressos, embora continue praticando a agricultura. Ele me apresentou seus filhinhos e sua esposa, que mostrou-me suas comidas (batatas, cereais, queijo andino e... argila salgada). Experimentei todos, inclusive batata com argila salgada. Gostei. Por enquanto nao senti nada de errado com essa dieta esquisita (no sentido português do termo). Mostrou-me sua criaçao de cuys - preás ou porquinhos da Índia - que aqui nesta regiao fica fora da casa, em umas casinhas de adobe de dois andares. Mostrou-me também seus fornos, suas ferramentas agrícolas - um ferro de cova e um enxadao - e como lavra a terra com elas.
De volta à rodovia tomei o ônibus turístico rumo a Cuzco. Os ônibus turísticos já nao sao mais majoritariamente brasileiros, como vinte anos atrás. Agora o mercado peruano é dominado por uma empresa espanhola, a Irizar, que é controlada por uma megacooperativa basca, a Mondragon, segundo me informa Jon, o basco que reencontrei no ônibus. A propósito, a televisao noticiou hoje que o caos do transporte público de Lima chegou a um ponto tal que vai ser enfrentado pelo Ministério de Transporte. O ministro entrou ao vivo para explicar como vai funcionar um consórcio formado por mais de uma centena de pequenas empresas de transporte, em regime de concessao. Esse consórcio vai receber financiamento bancário para renovar a frota e já começa com um sistema novo, pré-pago, com base em um cartao magnético que vai dispensar cobrador. Essa mudança coincide com uma manifestaçao de perueiros aí em Belém. Antes de ceder a pressao dos perueiros, é bom que as autoridades municipais de Belém se informem do que aconteceu aqui sob o neoliberalismo tosco de Fujimori que, aplicando tais preceitos no transporte público de Lima, simplesmente destroçou o sistema até entao existente, que agora vai ser retomado, com concessoes de dez anos.
Outra liçao para aprender com peruanos é como destruir um sistema de transporte público de passageiros universalizando a peruagem.
E também como obrigar mototaxista a usar triciclos cobertos para duas pessoas e com um lugar para pequenas cargas na trazeira.

Notícias da Ilha Taquile

Depois de umas duas horas de navegaçao pelo Titicaca levemente encrespado, chegamos a um dos portos da Ilha Taquiles, propriedade comunal dos seus moradores (que compraram a propriedade pedacinho por pedacinho de um latifundiário amigo do rei). Cada pessoa que ingressa na Ilha paga cinco soles, algo como R$3,50. Cada barco que ancora paga dois soles. Com esse dinheiro a comunidade melhora a infra-estrutura da ilha.
Subo lentamente pela trilha, calçada de pedras pelos próprios moradores (o alcaide daqui è mais nominal que real, pois vive em Puno embora tenha casa aqui). Já nao cansei tanto para chegar na comunidade encarapitada no topo da ilha, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. No caminho encontrei um dos líderes da Ilha com seus símbolos de poder: a roupa, o gorro, a faixa e a bolsa onde leva folhas de coca. Aqui os homens nao se cumprimentam apertando as maos, mas sim oferecendo folha de coca tiradas dessa bolsa, um ritual ancestral que ajuda a manter a coesao social. Por essas e por outras é que acho uma estupidez criminalizar o porte e uso da folha de coca. Para mim é algo tao absurdo quanto, por exemplo, criminalizar o porte e uso do... açaí.
Os moradores de Taquile vivem do turismo, da agricultura e da pecuária tradicional (principalmente ovelhas). O turismo deixou marcas, positivas e negativas, mais aquelas que estas. Positivas: o resgate das tradiçoes e a melhoria das condiçoes de vida dos taquilenhos. Negativas: um certo artificialismo que torna algo fake muito do que agora existe aqui. O saldo é positivo, pelo que percebi, pois até a Unesco reconheceu isso e incentiva o turismo como fonte de preservaçao da cultura dos ilhéus, principalmente a tecelagem (reconhecido como patrimônio imaterial pela Unesco), que aqui é trabalho dos homens (eles usam cinco agulhas com uma habilidade impressionante). Sentado na pracinha em frente da alcaidia, distribuí escovas e creme dental para algumas crianças. O sorriso escancarado no rostinho rechonchudo de uma delas já pagou a viagem inteira. Mas gentilmente recusei comprar o artesanato de outra mais grandinha, que levou também o seu kit.
A paisagem é lindíssima, indescritível. O azul do lago emenda com o azul do céu. O sol a pino torna óbvio porque ele era - e continua sendo - adorado por estes povos daqui: sem o sol simplesmente a vida seria impossìvel aqui, mais de 4.000 m sobre o nìvel do mar. Mas também nao seria possìvel em lugar nenhum, o que nos esquecemos na nossa civilizaçao, pelo estilo de vida que levamos. Para os povos tradicionais o sol (Inti) tem mesmo que ser adorado, pois dele tudo depende. Os painéis solares dos ilhéus nao deixam dúvidas disso, porque sao o perfeito enlace entre esse passado mítico e o presente. Afinal, de acordo com a cosmogonia inca o Inca (o imperador) era o filho de Inti feito homem. Essa ligaçao cosmogônica nao vai acabar nunca, enquanto existir gente nesta ilha, que para um observador marxista bem que poderia ser vista como praticante de uma espécie de socialismo andino. O poder é compartilhado e os líderes sao escolhidos pelos moradores fora do esquema eleitoral institucional. Os dois sistemas convivem e dialogam bem, mas a verdade é que a Ilha tornou-se independente do poder polìtico institucional, graças aos ingressos do turismo. E os ilhéus tomam decisoes que podem satisfazer socialistas e capitalistas. Por exemplo, os quarenta e oito restaurante da ilha oferecem o mesmo cardápio (a base de quinua, batatas, trutas e chá de ervas locais, inclusive coca) a preço igual, para que a competiçao nao afete o equilíbrio social dos ilhéus.
Aqui valem os mesmos preceitos que valem na Ilha Amantaní: nao roubar, nao ser indolente, nao mentir. O resultado é o mesmo: criminalidade zero.
Depois do almoço descemos para um porto do outro lado da ilha. O lago agora estava tranquilo e refletia um céu azul decorado com nuvens de formas caprichosas. Foi quase uma epifania.
Menos de três horas de navegaçao e estamos de volta a Puno, onde chego com a certeza de ter aprendido em dois dias com uros e ilhéus de Amantaní e Taquiles mais do que muitos anos de estudo e leitura. Estou agora convencido que os requerimentos de nossa civilizaçao e do nosso estilo de vida, que consome muito mais do que a Terra pode nos oferecer a todos, vai nos obrigar, mais dia, menos dia, a repensar essa nossa civilizaçao e esse nosso estilo de vida. Nao sei bem qual vai ser o caminho para o encontro desse ponto intermediário entre nós e os ilhéus do Titicaca, mas sei que teremos que encontrá-lo, enquanto podemos.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Notícias da Ilha Amantaní

Navegando desde a Ilha dos Uros por aproximadamente duas horas chegamos a Ilha Amantaní.
Somos recebidos no cais pelo Presidente da comunidade que vai nos receber. Depois das boas-vindas em quechua, somos apresentados às representantes das famílias que vao nos hospedar. A mim e a um basco chamado Jon - em euskera, antes era Juan - coube a família de Mari, uma simpática e tímida quechua de 17 anos, vestida a caráter para nos receber. O pai de Mari é Antonio, a mae é Luisa e o irmao é Juan Carlos. A família vive da agricultura e do turismo. Com os ingressos do turismo ampliaram sua casa de adobe, que agora tem dois pisos e quartos confortàveis para receber até seis hóspedes. Nos andenes (terraços herdados dos incas) cultivam batata, oca (um tubérculo adocicado), milho, quínua e habas (favas).
Depois de um passeio pelos andenes, fui ver Mari preparar nosso almoço, já sem as roupas tradicionais, na cozinha de uns quatro ou cinco metros quadrados. O fogao de cerâmica tem três bocas, onde ela prepara com muita calma - slow food é isso aí - uma sopa de quínua com papa (batata), oca e cenoura e frita uma rodela de queijo andino. No final, um digestivo chá de muña, uma erva nativa que cresce entre as pedras dos andenes e parece com arruda.
Depois nos reunimos no campo de futebol da comunidade - no porto de Puno encontrei um barco com nome Rey Pelé -para iniciar uma caminhada até o topo da ilha, pouco acima de 4.000 m.
No muro do campo de futebol estao escritos os três preceitos que estruram a vida social desta ilha: ama suwa, ama q´ella, ama llullav. Nao, roubar, nao ser indolente, nao mentir. Esses sao os fundamentos filosóficos imemoriais desta civilizaçao antiga e desta ilha em particular. O resultado é criminalidade zero. Nao existem cercas ou caes de guarda. Os problemas da comunidade sao resolvidas em reunioes domingueiras. Perguntei para Antonio sobre crimes (homicídios, roubos etc) e ele teve dificuldade para entender a pergunta, respondendo que aqui as pessoas morrem de morte natural.
Começamos a subida até o topo. Uma canseira chegar lá. O ar rarefeito obriga a parar umas quantas vezes. Inicio assim minha aclimataçao para fazer a Trilha Inca na sexta-feira. No topo, pouco acima de 4.000 m -o Titicaca está a 3.800 m e baixando cada vez mais - ficam as ruínas do templo a http://www.flickr.com/photos/fotolobo/411490744/ (Pai Terra). Conforme a tradiçao, dei três voltas em torno dele, dedicando-as a três desejos de Araceli (nao pode ser para o próprio caminhante, depois ela escolhe). O pôr do sol é fantástico nessa altitude e dá para distinguir na linha do horizonte nevados que ficam na Bolívia.
Volto para a casa de Antonio já de noite. Somos apresentados - eu, Jon e meu guia Adrian - a Antonio e Luisa, que agora prepara nosso jantar com a calma ancestral que transmitiu para Mari. O jantar é sopa de quínua, batata cozida com um delicado tempero, arroz e chá de muña.
Depois do jantar fui - devidamente paramentado com um poncho emprestado por Antonio - para uma fiesta no centro comunitário. Revendo agora as fotos, sinceramente, nao convenci ninguem da minha origem quechua, nem sentado, nem dançando com Mari. Nao podendo pagar mais mico do que o assim já bem pago, voltei para dormir o sono dos justos.
Acordei cedo - o sol nasce cinco horas da manha - com o som da chuva, das ondas do Titicaca, do cantar distante de um galo e o zurrar de um jumento.
Fui contemplar o Titicaca e caminhar por outros andenes onde já brotam o milho, a batata e a quínua. A agricultura ainda é praticada como nos tempos dos incas. Nao usam arado, mas apenas enxada para fazer as leiras. Sao hábeis no uso da água de aproveitam bem o terreno inclinado. Mas esta é uma característica destas Ilhas (Amantaní e Taquiles). No restante do Peru os andenes estao sendo abandonados, o que nao acontecia vinte anos atràs, quando estive aqui.
O desayuno preparado por Luisa foi panqueca com geléia de morango, sopa de quínua com macarrao, chuño (batata desidratada), batata e cenoura e chá de muña.
Nos despedimos de Luisa e Antonio e Mari nos acompanhou até o porto, para um ritual coletivo de gratidao e despedidas. Mais que um ritual, é mesmo uma imersao profunda nesta América profunda.
Viver bem - e calmamente - com pouco, construindo, aceitando e praticando preceitos claros e sólidos, é a liçao que nossa civilizaçao deve aprender com as famílias dos uros e dos quechuas da Ilha Amantaní.

Notícias da Ilha dos Uros

É impossível nao simpatizar com os uros.
Eles se dizem o povo mais antigo da terra e teriam chegado aqui na beira do Lago Titicaca antes do sol e da lua. Dizem também que graças ao seu sangue nao afundam e nao podem ser atingidos por raios.
Eles já viviam nas margens do Titicaca quando foram alcançados pela expansao do império inca, a qual resistiram abandonando a terra firme e construindo ilhas flutuantes de totora (junco). O sólido império inca foi desmanchado, mas os uros estao até hoje nas suas ilhas e vao muito bem obrigado. É verdade que o último uro puro morreu nos anos cinquenta do século passado e os atuais uros na verdade se miscigenaram com aimaras, de quem adotaram a língua.
Passei parte da manha de ontem em uma dessas ilhas com um grupo de turistas europeus e canadenses. O encantamento já começa na chegada, com a visao de um arco de totora e as cabanas onde vivem. Sentados em um semicírculo - em um banco de totora, por supuesto - com a ajuda do guia Richard - um legítimo quechua simpático como todos - nos mostram a totora, da qual aproveitam tudo, inclusive um palmito que nao pude experimentar. No passado eles cortavam os blocos flutuantes de raiz totora com uma corda mas agora usam serrotes. Rebocam os pedaços para o local escolhido, amarram uns aos outros e ancoram com poitas e varas. Depois lançam sucessivas camadas de totora, formando as ilhas sobre as quais constroem suas cabanas de seis metros quadrados mais ou menos, feitas com esteiras de... totora, claro. Nos mostram em seguida seu artesanato de totora (mobiles) e tecidos de la (de ovelha e alpaca) e o produto de sua pesca (carachi, do tamanho de uma sardinha). Por um furo no centro da ilha no mostram com um fio de prumo a profundidade do lugar: dez metros contados. Nos levam para conhecer suas casas e suas famílias, quase todas com painéis solares (para iluminaçao, rádio e TV). Na verdade cada ilha pertence a uma familia. Na cabana que visitei viviam seis pessoas, inclusive o bebê de cinco meses da jovem Norma. As crianças uros sao lindamente rechonchudas. Dela comprei um chullo (aquele gorro típico dos Andes) e uma chompa (camisa de manga comprida) para bebê e mostrando interesse nas chompas dos adultos ela me conseguiu uma com um vizinho. Mais uma para minha coleçao de roupas étnicas.
Nos convidam para navegar até outras ilhas em uma balsa (de totora, óbviamente) parecida com a famosa Kontiki (melhor dizendo, a Kontiki é que se parece com as balsas dos uros, com aquele jeitao viking). Nos despedem perfilados no cais cantando cançoes em aimara, ingles e frances. Navegamos calmamente pelo canal até chegar em outra ilha com posto de observaçao, restaurante e uma jaula onde criam trutas arco-iris. Nos mostram suas escolas, onde professores e alunos chegam de balsa.
Os uros resistem bem a uma nova invasao, a dos turistas. Na verdade o turismo ajuda a manter seus costumes e sua cultura e fica claro que sem o turismo os mais jovens abandonariam seu estilo de vida tradicional.
Com os uros aprendemos que a vida pode ser vivida com pouco.
Na metade do caminho entre a civilizaçao dos uros e a nossa deve estar a virtude necessária para viver sem destruir o planeta. Essa é a liçao que aprendemos nessa manha com os uros.

Celso Furtado

Federação Nacional dos Economistas Fundada em 23 de setembro de 1955SCS - Qd. 02, Ed. Anhangüera, Salas 717/718, Brasília-DFCEP: 70.315-900 - Tel. (61) 3225-0690 e Telefax: (61) 3224-7381 - www.fenecon.org.br

CINCO ANOS SEM CELSO FURTADO

Há cinco anos os brasileiros, sobretudo os Economistas e Estudantes de Economia, sofreram, uma perda irreparável.Partia o nosso Grande CELSO FURTADO, deixando-nos, como referências inesquecíveis, os seus impares e magnânimos exemplos de cidadania, como homem público, intelectual brilhante, professor abnegado, administrador público responsável e íntegro, além do seu profundo comprometimento com o desafio do desenvolvimento regional, hoje, no Brasil, reduzido a um simples e poderoso esquema de liberação de verbas públicas federais, destinadas a adubar interesses paroquiais e fisiológicos. Foram gerações de Economistas, no Brasil, nas Américas, na Europa, na África e na Ásia, que o tiveram como grande Mestre, em aulas ministradas no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, EUA, na Universidade de Sorbone em Paris, na Universidade de Cambridge na Inglaterra, sempre acolhido com muito carinho e respeito, sobretudo depois que, brutalmente, lhe cassaram os direitos políticos. Mas suas dezenas de obras serviram e servem também de farol, a iluminar os caminhos dos que queriam e queiram entender melhor a questão do subdesenvolvimento, e a busca de sua superação.Nascido em Pombal, na Paraíba, desde cedo demonstrou sua paixão pela Economia e seu compromisso com a Democracia. Pela primeira trocou seu diploma de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Pela segunda, ainda bem jovem, como Tenente de Infantaria R/2, formado pelo CPOR, seguiu para os campos de batalha da Itália, como voluntário na II Guerra, para lutar contra o Fascismo. Uma aula de coerência para todos os brasileiros, sobretudo para aqueles que se dizem Democratas de longas datas. Ao longo desses anos da perda irreparável, os Economistas brasileiros, assim como vários setores da sociedade civil organizada, continuam a reverenciar sua memória.Hoje, mais do que nunca, a melhor forma de render-lhe homenagem, será sempre tê-lo como fonte de inspiração, paradigma de vida, pelos múltiplos e imorredouros exemplos de estadista, intelectual e cidadão do Mundo que nos legou. Assim fazendo, nós Economistas estaremos eternizando seus ensinamentos de Mestre.
Brasília(DF), 20 de novembro de 2009.
Econ. Edson Roffé BorgesPresidente

Sábado, Novembro 21, 2009

Notícias de Lima (4)

Se no passado a violência no Peru era atribuída ao Sendero Luminoso, no presente ela segue o padrao de Nuestra América. A de ontem ficou por conta de um entrevero entre manifestantes e policiais. No pânico que se seguiu cinquenta pessoas foram pisoteadas e algumas ficaram politraumatizadas. Tem também coisas horrorosas, como uma quadrilha que supostamente matava pessoas para extrair gordura humana e exportar para a Europa.
Mas o assunto do dia - da semana, na verdade - é um caso curioso de espionagem.
Peruanos e chilenos vivem às turras desde a Guerra del Pacífico (1879-1883), quando a Bolívia perdeu a saída para o mar e o Peru perdeu parte de suas terras para o Chile. Pois agora os chilenos subornaram um suboficial da Força Aérea do Peru para obter informaçoes sobre a manutençao dos caças russos que os peruanos compraram. O traidor tinha três mulheres e se tornou presa fácil dos chilenos. Descontado o ridículo da coisa, o assunto está rendendo na mídia dos dois países e deixou Bachelet em uma saia justa, às vésperas de uma eleiçao que pode ser vencida pela direita pinochetista. A turma do deixa disso dos dois lados bota panos quentes. Do lado do Peru, principalmente os empresários, interessados mais em negócios que em guerra.
O assunto, descontado o ridículo da coisa, nao vai produzir uma nova Guerra do Pacífico. A nao ser uma guerra de sorrisos amarelos, que tem tudo para terminar empatada.

Notícias de Puno

Estou em Puno, às margens do Lago Titicaca, mais 3.800 m acima do nível do mar. Desci no aeroporto de Juliaca, a 44 km daqui. Estou me aclimatando para encarar a Trilha Inca Longa. Por via das dúvidas tomei um chá de coca ao chegar no hotel e já tomei uma soroche pills, uma novidade farmacêutica que promete acabar com o mal da altitude. Fui ver a composiçao: basicamente aspirina e cafeína. Pouco mais que um placebo, mas parece que funciona, pois nao estou sentindo nada de muito diferente. Mal nao faz. Mas estou seguindo as regras básicas: comida leve, chá de coca e muita água.
Dei sorte nesta chegada em dia de sábado pois exatamente hoje começaram os preparativos para a fiesta da Mamita Candelária, a padroeira de Puno, que vai acontecer em fevereiro, e assim pude assistir a primeira apresentaçao da Morenada Central, uma fraternidade que reúne os moradores da regiao para homenagear a padroeira carregando um andor, vestindo suas melhores roupas típicas - algumas bem européias - e dançando ao som de bandas de metais e percussao. No You Tube tem a coreografia e aqui uma acusaçao de suborno na competiçao deste ano. É, aqui em disso também.
Como aconteceu no México com Nossa Senhora de Guadalupe, o culto à Mamita Candelária é, na verdade, o prosseguimento dos cultos pré-hispânicos sob a capa dos ritos católicos, impostos pelos colonizadores espanhóis. As danças mal disfarçam isso. Claro que a Igreja sempre soube disso mas aceita o jogo, bem jogado pelos dois lados, aliás. O resultado é a sobreviência dos ritos herdados dos aimarás e dos incas sob essa capa católica. Até as representaçoes de Nossa Senhora foram ajustadas para absorver as formas anteriores, basicamente um triângulo cheio de significado para as populaçoes locais e muito bem apropriado pelos pintores da escola cuzquenha. O resultado é bonito de se ver. A dança lembra algumas de Nova Orleans e a das nossas baianas no Carnaval e na festa do Senhor do Bomfin, em Salvador. Aliás, como diria Isidoro Alves, isto aqui é também um carnaval devoto. E como acontece com nosso Círio e com a fiesta de Nossa Senhora de Guadalupe, sua perpetuaçao está garantida pela presença das crianças e dos jovens.
Fui jantar no La Casona, um restaurante que é também um museu. Peguei leve, para nao desafiar o soroche: torreja de quinua, sopa de quinua e panqueca de quinua. A quinua foi descoberta pelo mundo e agora está nos melhores cardápios. Já é encontrada até mesmo nos supermercados de Belém. Vinte anos atrás só quem passava por aqui era apresentado a ela, geralmente depois de ser alcançado pelo soroche, ocasiao em que a receita básica era descansar e tomar sopa de quinua. A quinua foi domesticada pelos incas, como a batata, o que aconteceu exatamente aqui em Puno. É cultivada e preparada até hoje como faziam os incas: tem que ser lavada quatro vezes em muita água para retirar uma toxina chamada saponina e só depois dessa preparaçao fica pronta para o consumo. A quinua caiu no gosto dos chefes do mundo inteiro e já se encontra nos cardápios dos restaurante até mesmo um prato chamado quinoto, que é o risoto de quinua. Essa combinaçao que fiz aqui em Puno é muito delicada e agrada os paladares mais exigentes.
Amanha vou passar o dia com os uros, povo andino que se diz o mais antigo do mundo, e vou pernoitar em uma casa de moradores da Isla Amantaní, no Lago Titicaca.
Comecei meu mergulho na América profunda.

Notícias de Lima (3)

Huaca Pucllana é uma pirâmide de adobe encravada no coraçao de Miraflores.
Vinte anos atrás nao era uma grande atraçao e estava um pouco abandonada.
Agora está cercada com elementos vazados de concreto armado, o que afeta negativamente a paisagem, de resto já prejudicada pelos edifìcios e casas. Os peruanos cometeram o erro de deixar a urbanizaçao chegar muito perto da pirâmide. Esse erro os mexicanos ainda nao cometeram com Teotihuacan, onde um projeto de um hipermercado na linha do horizonte ouriça os preservacionistas e intelectuais.
Huaca Pucllana está sendo restaurada e os trabalhos arquelógicos prosseguem, o que faz presumir melhorias. Espero que bastante e suficientes para no futuro retirar o cercado de concreto.
Como nao deu para entrar e visitar de verdade a pirâmide, espero voltar antes de ir para Iquitos.

Notìcias de Lima (2)

Estou em Miraflores, o bairro granfino de Lima. O restaurante do hotel fica na casa em que vivia o ex-Presidente Belaunde Terry. É uma casona colonial. No ladrilho junto do bar ainda tem a marca de um atentado a bomba do Sendero Luminoso. E nas paredes muitos quadros da escola cusquenha. A uma quadra daqui fica a Embaixada do Brasil, que ocupa quase metade de um quarteirao, na Av. José Pardo. É um prédio um tanto quanto soturno.

Nos tempos bravos - anos oitenta - Miraflores ficou um tanto quanto decadente. Nao era incomum encontrar dejetos humanos nas calcadas e o cheiro de urina incomava o caminhante. Mais ou menos como em algumas ruas de Belém (sim, há disso em Belém, mas só quem caminha pela cidade percebe).

Agora Miraflores volta a fazer jus ao nome. Os jardins e parques estao bem cuidados e tem mesmo muitas flores para ver. A Municipalid mantém um bom policiamento (ciudadano, por supuesto). A coleta do lixo é razoável (pelo menos nao tem aqueles monturos de lixo que conhecemos bem). A Praca Kennedy, a alma de Miraflores, foi revitalizada. No anfiteatro ontem a noite tinha musica mecanica e casais de todas as idades dancando salsa. Os restaurante e bares estao lotados (parece que nao tem crise). O eixo Praca Kennedy-Larco está se tornando uma espécie de Zona Rosa limenha, com restaurantes, danceterias e bares temáticos (inclusive um cubano) e barulhentos. No El Parquetito tem comida peruana de boa qualidade (experimentei ontem o chupe de pescado, um caldo de peixe bem temperado, e humitas rellenas de manjar blanco, uma pamonhazinha com doce de leite, e gostei).
Hoje de manha cedo fui visitar Huaca Pucllana, a piramide de adobe que fica aqui em Miraflores, bem perto do hotel.
Mas esse já é tema para outro post, porque está na hora de ir para Juliaca e daí para Puno.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Notícias de Lima

A primeira vez que estive em Lima foi nos anos oitenta do Século passado, depois de passar uns dias em Cuba. Viajei desde La Habana em um daqueles jumbos soviéticos lotado de pescadores russos (os russos tinham acordos de pesca com Cuba e Peru), que tomavam todo o estoque de Havana Club e aprontavam todas durante o voo. O Sendero Luminoso estava no auge. Alan Garcia era o Presidente. O Aeroporto era pouco mais que uma rodoviária melhorada. As pessoas falavam em inglês quando se referiam ao Sendero Luminoso, com medo de serem delatadas. O Sendero Luminoso náo impunha respeito, impunha medo, mesmo para gente de esquerda. Tive que antecipar a saída do hotel para o aeroporto em muitas horas porque o Sendero havia convocado um paro armado. Apesar dessa providência o motorista teve que se desviar de muitos obstáculos pelo caminho. De bom registrei o casco histórico bem cuidado e a excelente gastronomia.
Voltei depois nos anos noventa do Século passado, para um congresso jurídico. O Sendero havia sido destroçado por Fujimori, que entao ja tinha executado mais da metade de suas malfeitorias, mas ainda nao havia caído em desgraça. Nessa segunda vez o que me chamou atençao foi a destruiçao do sistema de transporte coletivo de passageiros, vítima de um neoliberalismo tacanho que permitiu a concorrência predatória dos perueiros (as combis, como se diz aqui) com o sistema convencional. Os dois sistemas foram destruídos e até agora nao foi recuperado o convencional. Para piorar, como a economia melhorou sob Fujimori a classe media teve mais acesso ao automóvel e Lima foi entupida de carros. Um caos urbano para ninguém botar defeito. Para quem reclama do transporte coletivo de Belém precisa experimentar o de Lima. Mas tenhamos por certo que se nao houver combate duro ao transporte dito alternativo, das vans, Belém é forte candidata a virar uma Lima no tucupi.
Mas uma outra coisa é certa: Lima continua tendo o melhor ceviche e o melhor pisco sour do mundo. Um presidente Alan Garcia que parece disposto a nao repetir os erros do primeiro mandato.
E um shopping center - o Larcomar - que tem uma sala de museu. Nada mais nada menos que do Museo del Oro, que é particular. Seria mais ou menos como se o nosso Doca Boulevard tivesse uma sala do Museu Goeldi (taí uma boa idéia).
O Museo del Oro de Lima nao é páreo para o Museo del Oro da Colômbia (este é do Banco Central da Colômbia). Mas a sala dele no Larcomar é excelente, tem poucas mas relevantes peças e um bom audioguia, como nos bons museus europeus.
Amanha vou para Juliaca e daí para Puno, para aclimatar-me a altitude antes de encarar a Trilha Inca Longa.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

América Profunda

Começo minhas férias hoje e inicio uma viagem à América profunda.
Vou voltar a Puno, Cuzco e Machu Picchu, na ordem inversa da viagem que fiz vinte anos atrás, mais ou menos, de Cuzco a Belém, via Bolívia (por Cochabamba, Santa Cruz de la Sierra e Puerto Suárez/Corumbá), de trem e ônibus.
Sei que a paisagem mudou, pouco, mas mudou. Mas sei que meus olhos mudaram muito.
Desta vez vou para um mergulho na América profunda dos uros, que vivem sobre ilhas artificiais de totora (junco) no Lago Titicaca, algumas delas com mais de 160 anos de idade. Vou viver um dia e uma noite com uma família em uma ilha do Lago Titicaca. Depois passo uns dois dias em Cuzco, me aclimatando para fazer a Trilha Inca Longa. Serão quatro dias de caminhada por um trecho da imensa Estrada Real dos incas, com altitudes que chegam a 4.000 metros sobre o nível do mar. No quarto dia de caminhada chego a Machu Picchu. No dia seguinte reingresso para mais uma vez rever a cidadela e seus mistérios.
Depois, passo uns dois dias em Lima e inicio outro mergulho, agora na Amazônia profunda. Vou passar uns dias em Iquitos, na selva amazônica peruana. E daí vou descer o imenso Rio até Belém, passando por Tabatinga/Letícia, Manaus e Santarém, seguindo mais ou menos o mesmo caminho de um cônsul francês em Callao (que registrou em livro a experiência) e de alguns outros viajantes como Wallace (escolhi o livro dele como companheiro de viagem).
Perto do Natal estarei de volta a Belém.
Sempre que possível registrarei essas etapas aqui.